segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Perdeu de novo.



por Luciana Lachance

O problema com o PT de Salvador é pessoal. Na eleição anterior para prefeito, tínhamos César Borges [antigo PFL], Pelegrino [PT] e um improvável João Henrique do PDT na disputa. Ninguém queria César Borges, pois ele representava demais ACM (e nisso Imbassahy terminou mais ileso). Parecia que o que estava em jogo era a aversão a César Borges – ACM, ou seja, era o momento em que Pelegrino teria a vitória certa, já que era o nome mais forte dentre os concorrentes. Se, por um lado, as pessoas não estavam muito certas sobre o que queriam, sabiam muito bem que não iriam votar no homem que largou o Senado pelo município por ordem de Antônio Carlos Magalhães. E por que Pelegrino não assumiu a disputa? Por que ele simplesmente não aproveitou a situação e ganhou a liderança? Por que um vereador apagado como João Henrique, com um discurso de fantasia [vale-transporte para desempregados], e cara de ressaca saiu na frente e ganhou a eleição de lavada? O que esse cara tinha feito além de encher o saco na Câmara de Vereadores com aquela história de estacionamento gratuito nos shoppings? Ora, João Henrique ganhou porque ninguém ia com a cara de Pelegrino. E essa aversão aos candidatos do PT que concorrem à prefeitura foi comprovada na eleição 2008. Pois Pinheiro [PT] só entrou na briga porque teve a grande sacada de isolar-se numa arena com João Henrique [que mudou para o PMDB no meio do mandato]: os dois se engalfinharam desde o início, tornando a disputa só deles, restando para o eleitor tomar partido de algum lado. E quando tudo o que o PT tinha que enfrentar era uma administração duvidosa, o que acontece? Perde de novo. Alguns perguntam: por que? Por que se os comícios estavam lotados, se as estrelas do partido estavam coladas em carros, camisas e testas das pessoas da rua? E eu respondo: porque Pinheiro é igualmente antipático, eis a explicação. Sei que pessoas irão desenvolver teorias muito melhores, a partir de pesquisas e estudos realmente sérios e que irão mencionar o “racha” do PT municipal nessa eleição; que alguns dirão que é porque Lula não veio, que a culpa é do ministro Geddel, que os camelôs é que deram a vitória a João Henrique, mas eu discordo. A única explicação possível para Pelegrino ter perdido a eleição de 2004 e Pinheiro ter perdido esta, é que suas respectivas caras combinadas com a moldura vermelha do PT são igualmente intragáveis. Talvez essa hipótese não possa ser confirmada com números, mas todas as vezes em que eu olho para os panfletos de Pinheiro, ou quando eu vejo as propagandas em que ele está fazendo seu discurso, eu penso: não dá com essa cara.

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Tomei a liberdade de publicar o comentário de Pedro Ravazzano deste texto, quase um outro texto, um complemento:

Exatamente! Pinheiro tinha um ranço muito forte. Sua figura não era carismática, não agregava. Ao contrário, João com sua cara de bobo-irônico gerava mais confiança do que os olhos esbugalhados e a fala minuciosamente construída do candidato petista.O mais engraçado foi que Pinheiro teve o apoio da maioria da classe média e dos cidadãos com ensino superior, enquanto João era soberano em Cajazeiras e no Subúrbio Ferroviário, ou seja, o Partido das massas só movimentava a burguesia. Isso não é de estranhar! A classe média proletarizada vota no PT acreditando no discurso popular que nem o povo carente, que seria o mais beneficiado, acredita.O PT de Salvador queria ganhar pelo susto. Para isso colocava nas ruas seu exército de idiotas úteis, os doutrinados e iludidos, assim como ligou o ON dos movimentos sociais controlados direta e indiretamente pelo Partido. Agora, depois da eleição, o Governador que só anda sóbrio veio dizer que a vitória de João também é a vitória da base governista. Que o fato do PMDB e do PT terem ido juntos ao segundo turno comprovava o poder do lulismo. Ora, me bata um abacate. Só na cabeça alcoolizada de alguém que acompanhou a campanha para isso ser verdade. O PT e o PMDB vão nutrir seqüelas até 2010. Essa campanha foi desgastante, dura, muito agressiva. Não tem como a vitória de João ser a vitória do governo. Ao contrário, nas atuais circunstâncias a vitória de João é o início da derrota de Wagner em 2010, o início do período do geddelismo (bem melhor que o wagnerismo), o início da doce, e venenosa, aliança PMDB - Democratas!

6 comentários:

Rafael Oliveira disse...

Foi uma derrota bonita e merecida. Uma vitória do anti-petismo que eu espero que ganhe força para 2010.

Pedro Ravazzano disse...

Exatamente! Pinheiro tinha um ranço muito forte. Sua figura não era carismática, não agregava. Ao contrário, João com sua cara de bobo-irônico gerava mais confiança do que os olhos esbugalhados e a fala minuciosamente construída do candidato petista.

O mais engraçado foi que Pinheiro teve o apoio da maioria da classe média e dos cidadãos com ensino superior, enquanto João era soberano em Cajazeiras e no Subúrbio Ferroviário, ou seja, o Partido das massas só movimentava a burguesia. Isso não é de estranhar! A classe média proletarizada vota no PT acreditando no discurso popular que nem o povo carente, que seria o mais beneficiado, acredita.

O PT de Salvador queria ganhar pelo susto. Para isso colocava nas ruas seu exército de idiotas úteis, os doutrinados e iludidos, assim como ligou o ON dos movimentos sociais controlados direta e indiretamente pelo Partido.

Agora, depois da eleição, o Governador que só anda sóbrio veio dizer que a vitória de João também é a vitória da base governista. Que o fato do PMDB e do PT terem ido juntos ao segundo turno comprovava o poder do lulismo. Ora, me bata um abacate. Só na cabeça alcoolizada de alguém que acompanhou a campanha para isso ser verdade. O PT e o PMDB vão nutrir seqüelas até 2010. Essa campanha foi desgastante, dura, muito agressiva. Não tem como a vitória de João ser a vitória do governo. Ao contrário, nas atuais circunstâncias a vitória de João é o início da derrota de Wagner em 2010, o início do período do geddelismo (bem melhor que o wagnerismo), o início da doce, e venenosa, aliança PMDB - Democratas!

Fabrício Oliveira Soares disse...

Bom, com toda a antipatia q Pinheiro tenha, ainda simpatizo mais com ele, q é evangélico pró-vida, do q com a grande maioria do partido. Claro q ñ votei nele, por motivos evidentes para vcs. Também ñ votei em João, embora prefira o resultado q a disputa final teve.
Mas tenho algumas dúvidas: não entendi essa parte q diz “Pois Pinheiro [PT] só entrou na briga porque teve a grande sacada de isolar-se numa arena com João Henrique [que mudou para o PMDB no meio do mandato]: os dois se engalfinharam desde o início, tornando a disputa só deles, restando para o eleitor tomar partido de algum lado." É q nos debates, o primeiro candidato com direito a perguntar, perguntava a ACM Neto; a ordem de preferência era Neto, João, Pinheiro, Imbassahy, e, por fim, Hilton, q só era perguntado por Imbassahy quando os outros não podiam mais ser interpelados. Não estou dizendo q o q você escreveu esteja errado, não sei se está ou não; digo que eu ñ percebi isso ( com a atenção reduzida q conferi à eleição)e gostaria de saber como foi esse "isolamento" na arena q vc enxergou.

Quanto ao comentário de Ravazzano, gostei muito, antes de chegar ao parágrafo final. O melhor resultado para o "lulopetismo" seria a eleição de Pinheiro, mas o fato de o 2ºturno ter se dado entre os dois me parece, sim, uma vitória do "lulismo", como falou o gov. Wagner .
(ah, acho q vc quis dizer "ébrio", em vez de "sóbrio"). O futuro é incerto, ainda mais nos dias atuais em q a política nacional ganhou formas meio "inusitadas", com alianças surpreendentes e contraditórias, como bem assinalavam os comentários em debates na TV, ontem, após a divulgação dos desfechos eleitorais: partidos se aliam nacionalmente, e disputam regionalmente (PT e PMDB disputaram aqui, e em Porto Alegre), e se opõem nacionalmente (PT e PSDB), e se aliam regionalmente, aqui e em BH, se não me engano. Além disso, ex-governantes q tiveram grande aprovação perdem eleições, e JH, q foi avaliado como dos piores prefeitos nacionais, se reelege. Digo essas coisas para ressaltar a natureza aparentemente imprevisível da política brasileira; digo aparentemente pq admito q o q eu escrevo pode ser, talvez, resultado de minha falta de conhecimento dessa política: tvz, para quem a tenha observado com mais profundidade, seja possível prever todas essas coisas q a mídia apresenta como surpresas, e prever também certos desenrolares para os próximos tempos. Mas, com base em minha visão política atual, questiono: mesmo havendo essa tal aliança Geddel-DEM, e um embate desta com o PT, que garantias temos de q ela irá vencer? Isso é indefinido, mas, que o atual eleito para nossa Prefeitura é um lulista e se escora na pessoa do presidente, isso é certo e ganho. Mas, digamos q você replique argumentando: mesmo q Geddel não ganhe, a disputa causará um racha na base governista (aponto esse provável argumento, porque você já o fez antes). Oxente, mas se a política brasileira já tem disputas regionais entre a base governista, pq acreditar q esta causará um racha? Você não supôs q essa racha possa acontecer, você manifestou certeza de q será assim. Você está comemorando possíveis (me parecem, hoje, “possíveis”) desdobramentos vindouros, enquanto que o presente é esse: a disputa em Salvador se deu entre o “lulopetismo1” e o “lulopetismo2”, como na época da ditadura entre a Arena1 e a Arena2, como comentou um sujeito no blog do Reinaldo Azevedo. O fato é que não temos um representante conservador na Terra de Todos os Santos e que você deposita suas esperanças no “lulopetismo2” para ferir o PT no coração. Olhe, eu ainda considerei a possibilidade de votar em João – como eu sempre faço, considero tudo... – mas, quando ele perguntou a Pinheiro, no debate, que medidas ele ia tomar para efetuar a “transferência de renda das camadas mais ricas para as mais pobres”, tomei ódio verdadeiro e decidi que não ia mesmo dar meu voto a esse cara. Lembrei agora que Plínio Corrêa de Oliveira sempre chamou a atenção para que as pessoas, temendo o comunismo, não aceitassem o socialismo moderado. Se tivesse me lembrado disso antes, provavelmente teria negado meu voto a J.Henrique com mais convicção do que a que tive ontem ao fazê-lo.
Venceu ontem, em Salvador, um defensor de idéias socialistas “moderadas”. Quem quiser comemorar o resultado de ontem, comemore sabendo disso, e comemore sem mim.

Luciana Lachance disse...

Fabrício,

Nos debates, o jogo é outro. Não é o mesmo que nas propagandas e no horário eleitoral. No debate todo mundo é educado, sabe que tem muito mais gente, digamos, "entendida" assistindo, do que o povão alcançado pela propaganda. O nível é maior, apesar de ter umas baixarias. Acm Neto era bastante atingido nos debates, mas considerando o fato de que ele é neto de quem é, foi pouco. E mesmo a grande propaganda utilizada para "sentar a madeira" nele foi justamente uma que colocava Lula em questão: Acm Neto dizendo que ia dar uma surra no presidente. E ele esteve na frente durante um bom tempo, nas pesquisas, por que então todas aquelas propagandas de Pinheiro contra João, e vice-versa? Pq então eles se atacaram tanto? Pinheiro estava no quarto lugar, eu acho, pois no início quem estava na frente era Acm e Imbassahy - ele não ia ter a menor chance se atacasse Acm Neto. Até o fato de tanto João como Pinheiro serem da base de Lula foi uma estratégia: no fim, era como se Lula fosse um consenso nessa cidade, e eles agora tivessem que brigar pelo apoio do presidente. Isso mostra como a arena deles foi isolada desde o início: a novela era um triângulo amoroso, e de repente, tudo o que podíamos ver era:
1) a propaganda da mulher supostamente enganada por JH, que teria usado sua imagem para divulgação de casas construídas, quando a foto mostraria apenas a fachada de uma creche.
2) o contra-ataque de JH a essa propaganda, dizendo que Pinheiro era mentiroso, usando militantes do PT para se fingirem de gente do "povo" e condenarem o prefeito
3) João Henrique dizendo o quanto Pinheiro era desleal e havia abandonado Lula [alguém esquece do vídeo em que Pinheiro diz que está deixando a bancada do PT?]
4) PT- Salvador entra na justiça, proibindo uso da imagem do presidente Lula por outros candidatos
5) João divulgando que Pinheiro era da secretaria de saúde durante 3 anos na prefeitura e que estava criticando o que ele mesmo havia feito...

Enfim, a lista é enorme... Alguém lembra de alguma coisa - fora dos debates - de ACM Neto, além da surra em Lula? Ou por ser contra Lula? Lula, Lula, Lula.... Lula se tornou a questão central dessa eleição fácil, fácil... e quem poderia entrar nessa disputa se não os dois que apóiam Lula? Por isso eu digo que eles se isolaram, porque pegaram algo que os uniam e que poderiam confundí-los, e transformaram isso numa cisão.

Rafael Oliveira disse...

Fabrício, discordo de você. Chamar João de lulo-pestimo2 me parece exagerado. Tudo bem que ele tenha ausado de se sizer aliado do presidente, mas dai a ser qualificado como petista. é importante lembrar que o PMDB é um partido governista seja qual for o governo, esteve com FHC, está com LULA e estará com quem se eleger em 2010. Neste sentido,foi uma derrota certeira no olho do PT, principalmente porque o Governador Wagner entrou de cabeça na campanha, João inclusive o chamou de lerdo.

Fabrício Oliveira Soares disse...

Olá, Luciana, ainda bem que eu avisei logo que não tinha acompanhado as campanhas, o meu comentário sobre esse ponto - o da "estratégia" - foi, realmente, baseado no que vi nos debates. Sua análise é fundamentada numa observação mais cuidadosa e completa, e achei muito interessante sua explicação sobre a "estratégia", é uma possibilidade que me passou totalmente batida. Nesse ponto, eu fazia um questionamento; mas, sobre as candidaturas de JH e Pinheiro, o que escrevi foi uma afirmação mesmo, que corresponde à minha percepção atual sobre os dois candidatos. João Henrique tem mentalidade socialista - pelo mesmo motivo, aliás, que McCain fez essa acusação a Obama, embora este seja sem dúvida mais à esquerda que nosso João - e me sinto satisfeito de não ter-lhe dado o meu voto. Isso é fato, mas, as conjeturações sobre o futuro do PT após essa derrota não tratam de fatos, não atualmente, pelo menos. E o que me incomodou é o fato de nós estarmos depositando nossas esperanças quanto à derrota da esquerda petista na outra "esquerda"; esta nunca vai nos dar algo próximo ao que queremos, penso eu.