sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A Escola do Ressentimento

por Luciana Lachance.

No semestre anterior, Vladimir [também membro deste blog] e eu tentamos colar um texto no mural do Instituto de Letras da Ufba. Coisa simples. Há espaço para os cartazes de seminários, de chopadas de Medicina e para poemas-afros por lá, e de vez em quando surge alguma outra coisa. Em teoria, o estudante deve se dirigir ao Centro Acadêmico para que algum dos membros cole o material no tal quadro. Há algum critério, é claro, mas é a redundância de sempre: desde que não contenha algo ofensivo, etc. O texto em questão era um artigo da Revista Bravo!, escrito por Alexandre Soares Silva, em que ele olhava para a própria graduação [em Letras] do passado e lamentava que as Universidades tivessem chegado a tal ponto: o ponto da mediocridade, o ponto em que o estudante de Literatura Inglesa não precisa ler Shakespeare. Segundo analogia do autor, ser formado em Literatura Inglesa sem jamais ter lido Shakespeare, Charles Dickens, Robert Browning, Yeats, Auden – e a lista se estende – é como ser formado em Medicina sem jamais ter visto um corpo. Nas duas páginas do artigo, em meio a uma bibliografia básica de curso (provavelmente desconhecida pelo perfil do estudante de Letras dos nossos dias), Alexandre nos conta que até mesmo teve de cantar um rap (!) sobre ecologia – e se você acha mesmo que isso não lhe diz respeito, espere até o final.

O cânone literário.

Inicialmente, o texto não foi colado no mural. Ele foi considerado como “problemático” por um dos membros do C.A., mas acho que o cara quis dizer “desconfortável”. Ele não apenas não conhecia os autores citados do artigo, como já lhe haviam dito que ele não precisava ler nada daquilo. Isso mesmo. Nossos professores de literatura estão nos dizendo que já não precisamos mais ler os grandes clássicos – basta que a teoria esteja embaixo do braço, e qualquer livro de banca, do tipo “Julia”, nos servirá. O Cânone Literário, eles dizem, é político. Algum tipo de conspiração elitista criou o cânone, apenas para que escritores “brancos, mortos e heterossexuais” estivessem nele, e dane-se Oscar Wilde! Certamente que a moral da classe dominante e seu pudor religioso deveriam ser mantidos no poder, e é justamente por isso que Baudelaire e Dante Alighieri permaneceram até hoje. William Blake diz, em O Matrimônio do Céu e do Inferno, que “[...] o relato do Demônio diz que o Messias caiu e formou um céu com o que ele roubou do Abismo”, e com isso estava a serviço da religião. A lista de autores malditos no Cânone é tão imensa que as ironias perderiam o sentido: boa parte dos escritores que formam o Cânone Ocidental não fazia parte da elite do seu tempo – e Shakespeare, o centro do cânone por excelência, é o exemplo disso. Sir Walter Scott enriqueceu escrevendo livros (assim como Dickens), construiu um castelo para si, mas não está no cânone. Salinger levou dez anos para que O Apanhador no Campo de Centeio fosse publicado, entrou no cânone, mas foi retirado em favor de Toni Morisson – mulher e negra, o resultado da força dos Multiculturalistas e da falácia da política de inclusão. É mais ou menos por isso que “Cadernos Negros” está nas listas dos vestibulares da Ufba e da Uneb deste ano, juntamente com O último vôo do Flamingo e mais uns tantos romances sobre a África – ruins, mal escritos, pobres de qualquer valor estético e chatos. O discurso político serve apenas para que grandes escritores sejam desbancados por uma leva de péssimos autores, aproveitando a oferta de cotas na Literatura, entrando pela janela porque escrevem para a Escola do Ressentimento – nome que o crítico norte-americano Harold Bloom deu para os acadêmicos que tentam atribuir à Literatura uma função, com a desculpa de que escritores negros, gays e mulheres não são lidos porque não defendem os valores da elite [sic]. A Escola do Ressentimento é o local de feministas, marxistas, membros do movimento negro, homossexuais militantes e demais pessoas que sofrem da síndrome de vítima. Não conformados com a atual configuração do Cânone, eles propõem a “abertura”: inclusão de escritores não em favor do valor estético de suas obras, mas em favor do campo de militância no qual atuam, em favor dos ideais políticos que defendem. A Literatura é uma arte, e como arte apenas os valores estéticos são capazes de defini-la. Emily Dickinson entrou no Cânone porque é boa, não porque é mulher. O Cânone Ocidental se faz ao longo do tempo, com as grandes obras que se mantém na história, pela excelência da Literatura e pela escolha do leitor comum.

A Universidade

Como diria Alexandre Soares, o professor de humanas atualmente não conhece a fundo a sua matéria. Os estudantes não se interessam por leitura, e em Letras isso é um caso ainda mais grave. Após uma vida pobre em livros, os estudantes na Graduação não se conformam com a cobrança que ainda resiste, a duras penas, de um repertório literário. A maioria migra para os Estudos Lingüísticos e os Estudos Culturais (o campo da Escola do Ressentimento, e que necessita de uma explicação num artigo à parte, tamanha controvérsia). O restante quer nos convencer de que o livro escrito pela empregada doméstica semi-analfabeta, mas que conta “uma história real”, ou que o livro do travesti Andréia, igualmente analfabeto, pode concorrer com um Guimarães Rosa ou um Machado de Assis. Não pode. Alfabetização é pré-requisito para a escrita, e no caso da Literatura, outras coisas são necessárias. Qualquer um pode lançar um livro: Bruna Surfistinha e Paulo Coelho atestam, mas nenhum deles permanecerá nos anos que se seguirão às suas mortes – razão pela qual o Cânone está cheio de autores mortos. É necessário um período longo para que uma obra se consolide no cânone, e só o tempo pode fazê-lo. A crítica universitária é devidamente representada por Silviano Santiago e é tão medíocre quanto ele; os trabalhos acadêmicos só enxergam as já fadadas ao fracasso relações de gênero e raça em autores tais; as políticas de ações afirmativas e as cotas fracassaram nos Estados Unidos, e elas irão fracassar aqui também, a cada ano.

No final das contas, o texto foi colado no Instituto de Letras. Procurei o membro do C.A. que o havia censurado antes e estava pronta para encaminhar o ocorrido para o departamento, mas eles tomaram conhecimento disso e resolveram ceder. O texto foi para o quadro, riscado, como vocês podem ver na foto abaixo. E pelo jeito, a leitura fez muita falta a eles.





[ O nome do Artigo de Alexandre Soares Silva é “Adeus, professor Benedict!” e saiu na revista Bravo! edição 115 – Março de 2007]

11 comentários:

Pedro Ravazzano disse...

Muito bom!!!!!!!
Parabéns!!
Depois eu comento com mais profundidade, estou um pouco preguiçoso, hehehe.

R. B. Canônico disse...

Olá Luciana!

Excepcional! Muito bom mesmo. Tenho alguns amigos das Letars e eles estão completamente desiludidos com o que vêem, pensando inclusive em fazr pos graduação no exterior. Um deles teve o privilégio de ver a última aula de Bruno Tolentino. Aliás, Tolentino era uma figura interessante: esteve envolvido no meio acadêmico inglês, mas não admitia as coisas que acointeciam na USP... o detalhe: ele tinha razão!

Não sei se alguém ai do grupo de vcs comrpou a primeira edição da revista "Dicta & Contradicta". Se não, fica a dica. Há um excelente artigo de Henrique Elfes que trata desse mesmo tema, só que opr uma outra perspectiva. Ele comenta de um certo "purismo" que alguns querem nas ciências humanas. Quer dizer, Letras não teria nada a ver com filosofia. E aí criam-se muitos dos absurdos que estão por aí nas faculdades!

Ah, o artigo chama-se "Filosofia numa hora dessas?"

Um grande abraço e parabéns pelo texto e pelo blog!

Luciana Lachance disse...

Obrigada pelos comentários!

Pedro: comenta mesmo!

R.B. :

Não sei como funciona a Graduação dos seus amigos, mas aqui na Ufba a possibilidade de escapar é o "correr por fora": tentar aproveitar ao máximo as matérias opcionais e procurar por professores que tenham outras propostas; o problema de fazer Graduação do exterior é que a maioria dos locais está em situação semelhante. Outro problema é que uma parte oferece o currículo fechado, e não tem a possibilidade de ver outras áreas. O bom é escolher com muito cuidado a Universidade lá fora - o mal do Multiculturalismo é uma realidade globalizada. Vou procurar as suas indicações de leitura! Valeu mesmo! Abraço!

Marcos Alberto de Oliveira disse...

Excelente artigo! O episódio relatado é algo muito corriqueiro, tolerado e até estimulado nas universidades, mas também revelador da completa indigência intelectual da vida acadêmica brasileira.

Trata-se de um lamentável estado de coisas cuja causa primeira é a criminosa identificação de ciência e cultura com ativismo político, identificação essa que só foi possível graças ao iluminismo francês, que transformou a reflexão filosófica em propaganda anticlerical e antimonárquica, e ao surgimento,já no século XIII, da figura do estudante vagabundo (o goliardo), com sua incorrigível inclinação à boêmia e ao protesto contra a ordem estabelecida.

A respeito dessa mediocridade militante que, não só nos cursos de Letras, substitui hoje o estudo sério e ideologicamente descompromissado, só consigo dizer o seguinte: É caso de polícia ou de psiquiatria avançada.

Cheguei aqui meio por acaso. Entrei na página do orkut do Pedro Ravazzano a partir de um comentário dele na comunidade Olavo de Carvalho
Lá, tomei conhecimento deste blog e de um grupo de estudos conservadores na Ufba. Descobri também que eu e o Pedro temos um amigo em comum, o Edgar, que recentemente defendeu uma brilhante monografia de conclusão de curso na Uesc (tratando do caráter inconstitucional do regime de cotas)
Tive a honra de fazer parte da banca examinadora e a satisfação (sádica, é verdade) de perceber in locu o quanto incomoda a essa gente o contraste entre pilantragem intelectual e competência científica, entre defender(ou atacar) causas e demonstrar (ou refutar) teses. Pois o trabalho do Edgar acabou suscitando uma involuntária manifestação de gramscianismo por parte de outro membro da banca examinadora, o que pra mim não foi novidade alguma, tratando-se de alguém que pensa que a idéia mesmo de justiça se confunde com "o direito achado na rua".

Pois é, fico feliz por saber que há quem, nos campi, leva a sério a tradição cultural do Ocidente e se dedica ao resgate do pensamento conservador.

Se puderem me informar sobre as atividades que vcs. desenvolvem (autores e assuntos estudados, questões abordadas, áreas contempladas etc.), meu e-mail é:

marlbert@ig.com.br

Marcos Alberto de Oliveira disse...

Excelente artigo! O episódio relatado é algo muito corriqueiro, tolerado e até estimulado nas universidades, mas também revelador da completa indigência intelectual da vida acadêmica brasileira.

Trata-se de um lamentável estado de coisas cuja causa primeira é a criminosa identificação de ciência e cultura com ativismo político, identificação essa que só foi possível graças ao iluminismo francês, que transformou a reflexão filosófica em propaganda anticlerical e antimonárquica, e ao surgimento,já no século XIII, da figura do estudante vagabundo (o goliardo), com sua incorrigível inclinação à boêmia e ao protesto contra a ordem estabelecida.

A respeito dessa mediocridade militante que, não só nos cursos de Letras, substitui hoje o estudo sério e ideologicamente descompromissado, só consigo dizer o seguinte: É caso de polícia ou de psiquiatria avançada.

Cheguei aqui meio por acaso. Entrei na página do orkut do Pedro Ravazzano a partir de um comentário dele na comunidade Olavo de Carvalho
Lá, tomei conhecimento deste blog e de um grupo de estudos conservadores na Ufba. Descobri também que eu e o Pedro temos um amigo em comum, o Edgar, que recentemente defendeu uma brilhante monografia de conclusão de curso na Uesc (tratando do caráter inconstitucional do regime de cotas)
Tive a honra de fazer parte da banca examinadora e a satisfação (sádica, é verdade) de perceber in locu o quanto incomoda a essa gente o contraste entre pilantragem intelectual e competência científica, entre defender(ou atacar) causas e demonstrar (ou refutar) teses. Pois o trabalho do Edgar acabou suscitando uma involuntária manifestação de gramscianismo por parte de outro membro da banca examinadora, o que pra mim não foi novidade alguma, tratando-se de alguém que pensa que a idéia mesmo de justiça se confunde com "o direito achado na rua".

Pois é, fico feliz por saber que há quem, nos campi, leva a sério a tradição cultural do Ocidente e se dedica ao resgate do pensamento conservador.

Se puderem me informar sobre as atividades que vcs. desenvolvem (autores e assuntos estudados, questões abordadas, áreas contempladas etc.), meu e-mail é:

marlbert@ig.com.br

Norma disse...

Hahahahahaha! Adorei!

O multiculturalismo é um câncer na literatura, não há outra palavra. E na minha área, literatura francesa, os teóricos e professores adoram dirigir caretas de desprezo para esses autores multiculturais, mas esquecem de olhar o próprio rabo: Foucault é o pai deles, segundo John M. Ellis (autor de Literature Lost, um livro que vale muito a pena ler).

Abraços!

Fernanda Caroline disse...

Cara Luciana.
Seu modo de ver a teoria contemporânea é lamentável. Mas como já pude perceber, vocês, conservadores, são teimosos como uma mula. Portanto deixo aqui meu pêsames.

hipergheto disse...

Vcs são uma seara no desertíssimo, pequeno e quase fechado mundo das Letras na Ufba. Ali a palavra de ordem é nivelar por baixo. Conheci o blog recentemente. Grande abraço e vida longa.

Rafael José dos Santos disse...

Texto interessante, mas que também pede um "filtro". Os comentários estão cheios de generalizações fáceis ("Nossos professores de Literatura") e de reduções (Estudos culturais = ressentimentos).
Além disso, outros pontos:
1) A "batida de martelo": "A Literatura é uma arte, e como arte apenas os valores estéticos são capazes de defini-la", mereceu de Pierre Bourdieu, que leu os clássicos, uma criteriosa crítica sociológica com pesquisa empírica.
2) Pode haver influência de uma vertente "politicamente correta" (e irritante) na postura de (e não "dos") professores de Literatura no Brasil, mas, em nosso caso, há outros agravantes.
Quem escreveu os comentários, não foi cuidadoso(a) e isso também não ajuda.
De qualquer forma, a questão fundamental da ausência de leitura (há sociólogos se formando sem nunca terem lido Weber) é tristemente verdadeira. Sociologicamente falando, existem diferentes dimensões nesse tipo de acontecimento (?) e não penso que ajude muito desfilar linhas e linhas de juízo valorativo.

Abraços,
Rafael

Jack Deth disse...

Fui expulso de umacomunidade do orkut por postar esse texto. contei a história em outra comunidade. Vejam:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=47930640&tid=5407727476372125027&start=1

Mateus disse...

Muito bom seu texto!
É bom saber que há um ou outro cérebro pensante nas Faculdades de Letras. Estudo na UFRGS, e a situação não é muito diferente.
Caso interesse, eis meu blog: http://www.novohamburgo.org/blogs/taberneiroveloz/

Abraço.
Deus os abençoe.