Mudei o assunto do artigo que ia publicar hoje: as circunstâncias podem maximizar o desejo de abordar tal ou qual tema, e o artigo que eu vinha escrevendo, que não é o que eu queria redigir agora, ficará para
depois, apesar de ser relacionado não apenas a idéias, mas também a um fato, que inclusive antecede os que abordo agora. Mas me marcou bastante o desfecho do seqüestro das meninas Eloá Cristina e Nayara; a primeira ficou 101 horas nas mãos de um louco imbecil, Lindenberg Alves, que, conforme ameaçava, disparou contra a garota, que morreu no hospital e cujos órgãos estão, se não me engano, sendo retirados nesse momento para doação.
Confesso que não andei acompanhando muito o caso durante os dias de seqüestro e, embora tenha ficado apreensivo com o que acontecia – ou melhor, com o que não acontecia, que era a tão desejada libertação das reféns – apenas aguardava o desfecho para ficar aliviado, pois este haveria de ser bom. Que infortúnio... pois terminou em final triste.
Se é que é necessário justificar o porquê de se comentar esse episódio neste blog, eu explico: ele é revelador de ânimos e tendências de nossas épocas, e os fatos diretamente ligados a ele são muito relevantes por este mesmo motivo. Analisarei diversas reações observadas no suceder da última sexta-feira em diante. Referirei ao que ocorreu, e ao que se fez, se diz, se pensou e se sentiu em relação a isso.
Ontem, na TV - estive ouvindo trechos de programas que falavam sobre o seqüestro, bastava eu perceber sobre o que se tratava que eu ia para frente da televisão – um psicólogo dizia o seguinte sobre o assunto: em casos como esse, o sujeito rejeitado é tomado de um grande impulso, um sentimento que o tornava imediatista e incapaz de pensar no futuro de suas ações, e ele age sob arrebatamento. Embora ele possa ter lido isso nos manuais de psicologia, não me parece de forma alguma uma observação inteligente sobre o que aconteceu. Embora seja evidente que um indivíduo que cometeu um crime destes esteve sob efeito de paixões – no sentido negativo, conforme o uso por filósofos e religiosos – há outros aspectos fundamentais que precisam ser considerados. Durante o longo tempo em que se desenrolou a ação, Lindenberg alternou entre momentos de frieza e de aparente descontrole; levou um ou dois revólveres e um saco de mun
ição, demonstrando sua preparação para o que fazia; procurou em vários momentos demonstrar controle da situação, e fez questão de desmentir explicitamente a idéia de que ele estava nervoso; sim, podia estar também, mas sabia bem o que fazia. A sua ação não se deveu apenas a um estado anormal de sua mente, como dão a entender certas explicações psicológicas que parecem servir apenas para “aliviar o lado” do criminoso estúpido, sugerindo que ele estava “confuso” ou coisa parecida; e, nesse ponto, ponho em questão um mito que aparece nos depoimentos de entrevistados que conheciam o rapaz, e que se repete a todo o momento na TV quando se fala sobre o “adolescente” assassino de 22 anos: o de que ele “era uma boa pessoa” que nunca teve antecedente criminal antes e que, portanto, não dava a menor pinta de que chegaria a fazer algo como o que fez, tão surpreendente em se tratando de alguém como ele, um jovem que trabalhava. Não: ao ver alguém fazer o que ele fez nos mais de quatro dias, pode procurar conhecer a sua vida pregressa que você vai encontrar sinais de seu mau-caráter.
Depoimentos de amigas da vítima – não o Lindenberg, dessa vez me refiro a Eloá, (não se assuste se você for uma pessoa normal, é que hoje há pessoas que aparentam não saber distinguir entre criminoso e vítima)– falaram que ele era um ciumento possessivo e que BATIA NA GAROTA. Isso, o cretino era um machista demente, que se sentia o proprietário da menina e não suportou que sua propriedade o desapropriasse, julgando a propriedade pertencer a si mesma e não a seu verdadeiro dono, o ex-namorado sete anos mais velho que ela. O idiota que batia na ex-namorada refém – pois é, ela apanhou lá dentro nos seus últimos dias (http://oglobo.globo.com/sp/mat/2008/10/19/em_depoimento_policia_nayara_conta_que_lindemberg_bateu_em_eloa-586017124.asp ) - batera nela tempos antes. Mas, disseram as amigas, a família de Eloá não acreditou quando esta contou que apanhava de Lindenberg. Aí vemos porque o vagabundo era tido como um bom sujeito! Porque estava rodeado por cegos, e por surdos que não escutavam a própria filha. Sei que nesse momento a dor da família é enorme, e não tenho o desejo de ficar fustigando ninguém ( a não ser o próprio Lindenberg, que eu gostaria de humilhar e espancar), mas é preciso chamar a atenção para certas coisas, para que certos comportamentos sejam corrigidos. Eu tive uma amargura que não vou conseguir esquecer por não ter conseguido, em casa, dar a minha versão sobre o que professores e outros “profissionais da educação” falaram sobre mim em reuniões de pais e professores. Para poder proteger alguém, é preciso prestar atenção. Sim, prestar atenção no que ela tenta dizer, e prestar atenção nas pessoas que nos rodeiam, que podem não ser as pessoas que muitos dizem ser. No caso de Lindenberg, a violência era um traço mesmo da sua personalidade, e foi muito lindo acontecer um fato inusitado: o seu advogado o abandonou. Isso porque o delinqüente não cumpriu com o que prometeu, não fez sua parte para que tudo terminasse bem. Perfeito seria ver esse cara ser abandonado por todos os que tem qualquer coisa a ver com ele. Ele tem de terminar sozinho: é um louco homicida, uma ameaça às outras pessoas, à sociedade.
Outro aspecto muito importante relacionado ao ocorrido é a questão da “cobertura da imprensa”, criticada por Reinaldo Azevedo no seu blog, no post “A TRAGÉDIA DE SANTO ANDRÉ: E NÓS COM ISSO?”. O jornalista questiona sobre que postura a imprensa deve adotar nessas ocasiões, que seja mais séria que a atual. Ele escreve: “Será que não é hora de a imprensa rever o seu papel em casos como este? Não sou especialista em comportamento — nada além de algum bom senso. Mas indago: o que será que alguém como Lindebergue pretende? Durante cinco dias, este rapaz ligou a televisão e se viu como a estrela de um filme longuíssimo, de um drama que mobilizou o país, que levou especialistas em comportamento à televisão para aquelas digressões entre irresponsáveis e irrelevantes sobre o comportamento humano. Um rapaz pobre, da periferia, que decide se vingar da ex-namorada, vê-se, subitamente, no centro de uma verdadeira comoção nacional.” Interessantíssimo notar que, de sexta para sábado, mais dois casos de seqüestros por motivos passionais aconteceram, um em Mato Grosso do Sul (http://www.midiamax.com/view.php?mat_id=346500 ) e outro em São Paulo, noticiado na TV. Contento-me em apenas mencionar esse relevante debate aqui, pois se nem o “Tio Rei” tem idéias bem definidas de como se pode resolver esse problema, não sou eu quem o fará. Mas faço questão de subscrever a crítica à Sonia Abrão por seu programa, da rede TV, ter entrevistado o seqüestrador. Que competência ela se atribui para fazer isso? Ninguém de cabeça no lugar poderia se intrometer sem consultar o GATE, que cuidava da operação. O pior é que, segunda Datena, um homem da polícia falou que essa interferência atrapalhou o trabalho policial. Procurem os vídeos relacionados a essa confusão no youtube e vejam. Que coisa...
Quanto aos erros e acertos da polícia, as perícias, investigações e, sobretudo, o depoimento de Nayara, que estava na cena do crime quando tudo terminou, vão trazer esclarecimentos que nos permitirão ter uma visão mais consistente sobre a ação da polícia. Não pretendo comentar essa questão aqui, sobre a qual muito se está sendo pronunciado – espero que não por causa de um certo sentimento anti-policial que existe no Brasil, difundido por pessoas de mentalidade “progressista”. Reinaldo Azevedo demonstra bastante esse temor, e vale citar o seu post “O NOME DO CRIMINOSO”
para que se lembre bem de algo: o bandido é Lindenberg. Outros podem ter errado, mas ele é o delinqüente. O que eu quero avisar a vocês, para concluir esse artigo, é um certo aspecto relativo à repercussão do caso, que não poderia ser pequena. Sim, muita gente está abalada com o que aconteceu, e a tristeza e a revolta são os sentimentos normais que as pessoas podem ter em circunstâncias como essa. Não é sobre isso que eu queria escrever: quero registrar a lamentável atitude de pessoas sociopáticas que procuram calcar a dor, a tristeza e a revolta daqueles que são seres humanos e por isso estão chocados com tudo o que houve.
Antes de Eloá morrer, foram criadas comunidades no orkut onde se manifestava solidariedade pelas vítimas, e se pedia a Deus por elas, e se escrevia coisas comovidas. A comunidade mais importante foi infestada por gente postando coisas odiosas e agressivas em relação à garota que morria, tornando o seu ambiente insuportável. É visível que os que freqüentam a comunidade em peso são os adolescentes, como aquelas garotas, e são sumamente desrespeitados. Visitar o perfil de Eloá e Nayara é impactante – principalmente quanto à primeira, por seu destino; vejo um estilo de se escrever, cheio de emoticons e apelidos, vejo expressões de carinho entre amigas (de amizade sincera, de quem não consegue deixar a amiga sozinha num momento desesperador), iguais a como se vê no orkut de qualquer menina adolescente; é a mesma coisa de se visitar o profile de uma colega de escola de minha irmã; vejo comunidades das quais minha irmã participa. É muito diferente de se ver a notícia na TV, onde também se transmite novelas, filmes, onde a realidade e a ficção parecem misturar-se; é sentir a própria realidade da tragédia junto a você, é ver que morreu uma menina como nossas irmãs. Aquelas atitudes doentias dos que substituem a reverência pelo deboche e pela ofensa são sinais onde vivemos. Onde vivemos? Onde as pessoas não se preocupam umas com as outras e não sofrem com o mal impingido ao próximo, não há sociedade, há um conjunto de pessoas que são obrigadas a morar em tal lugar, mas não uma sociedade verdadeira, coesa, unida por laços de comprometimento e de apoio mútuo; sociedade requer solidariedade.
Que sejamos capazes de existir como humanos!
Fotos: no alto, sendo levado pela polícia o egocêntrico assassino: "Eu sou o cara"; "Eu não tenho nada a perder"; depois, o monstro chora na cadeia: "Eu quero Eloá"
Na de baixo, as duas grandes amigas separadas por aquele degenerado: união até no perigo e nos maus-tratos impostos a ambas no cativeiro
depois, apesar de ser relacionado não apenas a idéias, mas também a um fato, que inclusive antecede os que abordo agora. Mas me marcou bastante o desfecho do seqüestro das meninas Eloá Cristina e Nayara; a primeira ficou 101 horas nas mãos de um louco imbecil, Lindenberg Alves, que, conforme ameaçava, disparou contra a garota, que morreu no hospital e cujos órgãos estão, se não me engano, sendo retirados nesse momento para doação.Confesso que não andei acompanhando muito o caso durante os dias de seqüestro e, embora tenha ficado apreensivo com o que acontecia – ou melhor, com o que não acontecia, que era a tão desejada libertação das reféns – apenas aguardava o desfecho para ficar aliviado, pois este haveria de ser bom. Que infortúnio... pois terminou em final triste.
Se é que é necessário justificar o porquê de se comentar esse episódio neste blog, eu explico: ele é revelador de ânimos e tendências de nossas épocas, e os fatos diretamente ligados a ele são muito relevantes por este mesmo motivo. Analisarei diversas reações observadas no suceder da última sexta-feira em diante. Referirei ao que ocorreu, e ao que se fez, se diz, se pensou e se sentiu em relação a isso.
Ontem, na TV - estive ouvindo trechos de programas que falavam sobre o seqüestro, bastava eu perceber sobre o que se tratava que eu ia para frente da televisão – um psicólogo dizia o seguinte sobre o assunto: em casos como esse, o sujeito rejeitado é tomado de um grande impulso, um sentimento que o tornava imediatista e incapaz de pensar no futuro de suas ações, e ele age sob arrebatamento. Embora ele possa ter lido isso nos manuais de psicologia, não me parece de forma alguma uma observação inteligente sobre o que aconteceu. Embora seja evidente que um indivíduo que cometeu um crime destes esteve sob efeito de paixões – no sentido negativo, conforme o uso por filósofos e religiosos – há outros aspectos fundamentais que precisam ser considerados. Durante o longo tempo em que se desenrolou a ação, Lindenberg alternou entre momentos de frieza e de aparente descontrole; levou um ou dois revólveres e um saco de mun
ição, demonstrando sua preparação para o que fazia; procurou em vários momentos demonstrar controle da situação, e fez questão de desmentir explicitamente a idéia de que ele estava nervoso; sim, podia estar também, mas sabia bem o que fazia. A sua ação não se deveu apenas a um estado anormal de sua mente, como dão a entender certas explicações psicológicas que parecem servir apenas para “aliviar o lado” do criminoso estúpido, sugerindo que ele estava “confuso” ou coisa parecida; e, nesse ponto, ponho em questão um mito que aparece nos depoimentos de entrevistados que conheciam o rapaz, e que se repete a todo o momento na TV quando se fala sobre o “adolescente” assassino de 22 anos: o de que ele “era uma boa pessoa” que nunca teve antecedente criminal antes e que, portanto, não dava a menor pinta de que chegaria a fazer algo como o que fez, tão surpreendente em se tratando de alguém como ele, um jovem que trabalhava. Não: ao ver alguém fazer o que ele fez nos mais de quatro dias, pode procurar conhecer a sua vida pregressa que você vai encontrar sinais de seu mau-caráter.Depoimentos de amigas da vítima – não o Lindenberg, dessa vez me refiro a Eloá, (não se assuste se você for uma pessoa normal, é que hoje há pessoas que aparentam não saber distinguir entre criminoso e vítima)– falaram que ele era um ciumento possessivo e que BATIA NA GAROTA. Isso, o cretino era um machista demente, que se sentia o proprietário da menina e não suportou que sua propriedade o desapropriasse, julgando a propriedade pertencer a si mesma e não a seu verdadeiro dono, o ex-namorado sete anos mais velho que ela. O idiota que batia na ex-namorada refém – pois é, ela apanhou lá dentro nos seus últimos dias (http://oglobo.globo.com/sp/mat/2008/10/19/em_depoimento_policia_nayara_conta_que_lindemberg_bateu_em_eloa-586017124.asp ) - batera nela tempos antes. Mas, disseram as amigas, a família de Eloá não acreditou quando esta contou que apanhava de Lindenberg. Aí vemos porque o vagabundo era tido como um bom sujeito! Porque estava rodeado por cegos, e por surdos que não escutavam a própria filha. Sei que nesse momento a dor da família é enorme, e não tenho o desejo de ficar fustigando ninguém ( a não ser o próprio Lindenberg, que eu gostaria de humilhar e espancar), mas é preciso chamar a atenção para certas coisas, para que certos comportamentos sejam corrigidos. Eu tive uma amargura que não vou conseguir esquecer por não ter conseguido, em casa, dar a minha versão sobre o que professores e outros “profissionais da educação” falaram sobre mim em reuniões de pais e professores. Para poder proteger alguém, é preciso prestar atenção. Sim, prestar atenção no que ela tenta dizer, e prestar atenção nas pessoas que nos rodeiam, que podem não ser as pessoas que muitos dizem ser. No caso de Lindenberg, a violência era um traço mesmo da sua personalidade, e foi muito lindo acontecer um fato inusitado: o seu advogado o abandonou. Isso porque o delinqüente não cumpriu com o que prometeu, não fez sua parte para que tudo terminasse bem. Perfeito seria ver esse cara ser abandonado por todos os que tem qualquer coisa a ver com ele. Ele tem de terminar sozinho: é um louco homicida, uma ameaça às outras pessoas, à sociedade.
Outro aspecto muito importante relacionado ao ocorrido é a questão da “cobertura da imprensa”, criticada por Reinaldo Azevedo no seu blog, no post “A TRAGÉDIA DE SANTO ANDRÉ: E NÓS COM ISSO?”. O jornalista questiona sobre que postura a imprensa deve adotar nessas ocasiões, que seja mais séria que a atual. Ele escreve: “Será que não é hora de a imprensa rever o seu papel em casos como este? Não sou especialista em comportamento — nada além de algum bom senso. Mas indago: o que será que alguém como Lindebergue pretende? Durante cinco dias, este rapaz ligou a televisão e se viu como a estrela de um filme longuíssimo, de um drama que mobilizou o país, que levou especialistas em comportamento à televisão para aquelas digressões entre irresponsáveis e irrelevantes sobre o comportamento humano. Um rapaz pobre, da periferia, que decide se vingar da ex-namorada, vê-se, subitamente, no centro de uma verdadeira comoção nacional.” Interessantíssimo notar que, de sexta para sábado, mais dois casos de seqüestros por motivos passionais aconteceram, um em Mato Grosso do Sul (http://www.midiamax.com/view.php?mat_id=346500 ) e outro em São Paulo, noticiado na TV. Contento-me em apenas mencionar esse relevante debate aqui, pois se nem o “Tio Rei” tem idéias bem definidas de como se pode resolver esse problema, não sou eu quem o fará. Mas faço questão de subscrever a crítica à Sonia Abrão por seu programa, da rede TV, ter entrevistado o seqüestrador. Que competência ela se atribui para fazer isso? Ninguém de cabeça no lugar poderia se intrometer sem consultar o GATE, que cuidava da operação. O pior é que, segunda Datena, um homem da polícia falou que essa interferência atrapalhou o trabalho policial. Procurem os vídeos relacionados a essa confusão no youtube e vejam. Que coisa...
Quanto aos erros e acertos da polícia, as perícias, investigações e, sobretudo, o depoimento de Nayara, que estava na cena do crime quando tudo terminou, vão trazer esclarecimentos que nos permitirão ter uma visão mais consistente sobre a ação da polícia. Não pretendo comentar essa questão aqui, sobre a qual muito se está sendo pronunciado – espero que não por causa de um certo sentimento anti-policial que existe no Brasil, difundido por pessoas de mentalidade “progressista”. Reinaldo Azevedo demonstra bastante esse temor, e vale citar o seu post “O NOME DO CRIMINOSO”
para que se lembre bem de algo: o bandido é Lindenberg. Outros podem ter errado, mas ele é o delinqüente. O que eu quero avisar a vocês, para concluir esse artigo, é um certo aspecto relativo à repercussão do caso, que não poderia ser pequena. Sim, muita gente está abalada com o que aconteceu, e a tristeza e a revolta são os sentimentos normais que as pessoas podem ter em circunstâncias como essa. Não é sobre isso que eu queria escrever: quero registrar a lamentável atitude de pessoas sociopáticas que procuram calcar a dor, a tristeza e a revolta daqueles que são seres humanos e por isso estão chocados com tudo o que houve.
Antes de Eloá morrer, foram criadas comunidades no orkut onde se manifestava solidariedade pelas vítimas, e se pedia a Deus por elas, e se escrevia coisas comovidas. A comunidade mais importante foi infestada por gente postando coisas odiosas e agressivas em relação à garota que morria, tornando o seu ambiente insuportável. É visível que os que freqüentam a comunidade em peso são os adolescentes, como aquelas garotas, e são sumamente desrespeitados. Visitar o perfil de Eloá e Nayara é impactante – principalmente quanto à primeira, por seu destino; vejo um estilo de se escrever, cheio de emoticons e apelidos, vejo expressões de carinho entre amigas (de amizade sincera, de quem não consegue deixar a amiga sozinha num momento desesperador), iguais a como se vê no orkut de qualquer menina adolescente; é a mesma coisa de se visitar o profile de uma colega de escola de minha irmã; vejo comunidades das quais minha irmã participa. É muito diferente de se ver a notícia na TV, onde também se transmite novelas, filmes, onde a realidade e a ficção parecem misturar-se; é sentir a própria realidade da tragédia junto a você, é ver que morreu uma menina como nossas irmãs. Aquelas atitudes doentias dos que substituem a reverência pelo deboche e pela ofensa são sinais onde vivemos. Onde vivemos? Onde as pessoas não se preocupam umas com as outras e não sofrem com o mal impingido ao próximo, não há sociedade, há um conjunto de pessoas que são obrigadas a morar em tal lugar, mas não uma sociedade verdadeira, coesa, unida por laços de comprometimento e de apoio mútuo; sociedade requer solidariedade.
Que sejamos capazes de existir como humanos!
Fotos: no alto, sendo levado pela polícia o egocêntrico assassino: "Eu sou o cara"; "Eu não tenho nada a perder"; depois, o monstro chora na cadeia: "Eu quero Eloá"
Na de baixo, as duas grandes amigas separadas por aquele degenerado: união até no perigo e nos maus-tratos impostos a ambas no cativeiro
2 comentários:
Muito bom seu texto! Eu tinha pensado em escrever algo sobre esse assunto, mas o que vc escreveu está muito melhor. Também fico surpresa com esse sentimento anti-polícia nesse país... muitos cobraram que os atiradores de elite tivessem dado cabo em Lindenberg, mas um policial, em entrevista, disse que isso não seria possível devido às nossas leis, e principalmente, à proteção que a mídia e o senso-comum dá para esses marginais que depois serão pintados como vítimas da sociedade opressora. Não é à toa que está saindo um filme sobre o marginal do sequestro daquele ônibus de uns anos atrás [O ônibus 174]...
Olá Luciana, obrigado pelos seus elogios, me sinto muito lisonjeado!
Agora, quero aproveitar para acrescentar algumas coisas nada agradáveis que vi depois de escrever esse texto; hoje, vi num noticiário da Record uma certa retrospectiva de outros crimes semelhantes, também chocantes, que mostram que o que aconteceu à Eloá é um indicador do estado de coisas da nossa sociedade (coisa já sábida, claro). E também uma coisa espantosa que ouvi da advogada de Lindemberg: ele soube hoje da morte de Eloá e ficou muito triste etc. Mas o noticiário já tinha mostrado, dias antes, Lindemberg comentando a morte da garota (ou seja, antes de saber do fato...). Mas, há mais uma coisa muito significativa e que não se repara, apesar de bastante grave: a banalização da palavra "amor" ao se tratar de casos como este, de "crimes de amor", que se passa até em noticiários de emissoras religiosas. Bom, atentem-se: o amor pode levar ao crime!
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