sábado, 13 de setembro de 2008

Liberdade e Responsabilidade

Quando Alexis de Tocqueville percorreu durante oito meses a nascente democracia americana percebeu o fenômeno particular que ocorreu naquele país e naqueles anos. A recém-nascida classe média americana experimentava as primeiras benesses do progresso material e do acúmulo de riquezas. Utensílios que proporcionavam conforto e poupavam as pessoas de trabalho eram uma novidade crescente. Tocqueville percebeu que a conseqüencia imediata desse fenômeno seria as pessoas se tornarem muito egoistas, isolando-se em suas casas já que o imperativo de ajuda mútua para satisfazer as nescessiadades tinha ficado no passado. Mas isso não aconteceu. A maneira pela qual foi organizada a distribuição de poder equacionou esse problema. O Estado federativo quando delegou autonomia administrativa para cada região, cidade, condado, deu em alguma medida poder a cada cidadão de resolver seus problemas. Deste modo, quando alguma coisa precisava ser resolvida numa cidade, condado ou vilarejo não era ao Estado que as pessoas recorriam, mas umas as outras. Elas eram impelidas a sair de suas casas e se juntarem para resolver seus problemas. Um raciocínio muito simples estimulava esse comportamento. "Tenho que ajudar meu vizinho agora porque mais tarde pode ser eu que venha a precisar dele". Nasciam assim as famosas associações americanas estabelecendo naquelas terras uma liberdade de consumo, uma busca pelo progresso material que era amparada por um contra-peso de responsabilidade com a comunidade, com os vizinhos, com as pessoas. Latitude abaixo as coisas se deram de forma um tanto diferente. No Brasil da mesma época, o Rei D.João VI simplesmente proibiu as pessoas de se associarem. Três individuos juntos era crime, dava cadeia. Não posso afirmar com certeza, mas parece haver ai um forte indicio da famosa dependência do brasileiro do Estado, do governo, seja ele de direita ou de esquerda. Por aqui as pessoas não sabem sequer como se associar, não fazem ideia de que seja possível resolver um problema usando tal dispositivo e, quando algum grupo tenta fazer algo parecido, a primeira coisa que idealizam é fundar um partido politico. É em razão disso que o acumulo de riquezas e progresso material encontram no espirito brasileiro o completo vazio de responsabilidade, tornando as pessoas egoistas, isolando-as em suas casas e tornando-as incapazes de se preocupar com os problemas alheios, afinal "eles que resolvam seus problemas, que eu já tenho muitos que cuidar". Quando se postula que essas conseqüencias ocorridas no Brasil são conseqüencias naturais do modo de produção capitalista, está se fazendo uma analise raza do fenômeno, não levando em consideração as disposições estruturais do país, e generalizando um fenômeno local para um sistema amplo que obteve conseqüências totalmente diversas em outros locais. A previsão inicial de Tocqueville para os EUA se realizou no Brasil.

Um comentário:

Diogo disse...

Eu concordo completamente com seu raciocínio. A mentalidade do brasileiro ainda é completamente cortesã, onde o importante é ser amigo do rei, do marquês, do conde ou do barão. Acredito muito na associação de pessoas procurando soluções para seus interesses locais, ao invés de dependerem do Estado ou movidas por ideologias alienígenas.